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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Escreve-me na água do mar o trajecto da lua

Há uma mão movimentando a lua,
metendo-a, tirando-a da vastidão do seu lar que é mar
para secar estende-a na conversão da força lunar

Há um pau incitando a falua
que carrega iluminação adormecida
São deveras dolorosas as permanências e partidas 
A lua todos dias perde, ganha vida
É do seu Sumiço que me aparece um céu de feridas

por isso a qualquer um peço o seguinte:
-escreve-me na água do mar o trajecto da lua
para não a ver mais partir

Atendido o meu pedido 
verei sempre a lua a sorrir  
As águas terão conservado o seu suor
quando de mim se alocou 
pois, a água não é de todo amnésica 
como vós pensais
a lua e a água se conhecem sensivelmente
vedes, de natureza são,
e de natureza vê quem de natureza sente
escreve-me na água do mar o trajecto da lua 





Adam Lima Malicha; in: "Almanaque"








imagem: Lara Guerra

Lara Guerra Nasceu em 31 de Janeiro de 1929 em Maputo, Moçambique.
Iniciou-se na pintura no atelier do pintor Malangatana. Actualmente vive em Portugal.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

MARULHO

foto: Adam Lima Malicha
MARULHO

Esbate a ventania, do fundo afora do mundo do mar. Traz-se a correnteza espumada do mar cuspido ao catapultar do seu bafo. É o manifesto, o fervilhar. Tudo mostra hiatos de auto-abandono rumo ao árido continente, rumo ao húmido mar numa monotonia de vaivém que deixa gorjeios “flamingueiros” tartamudos sem eira-nem-beira. Há fome fora do mar! Este movimento é estonteante! Pescadores de todo tipo arrumam as suas redes nas profundezas dos seus pacatos barcos. Hoje não há mariscos! As marés não permitem. A atmosfera transmuta o convívio seco e sério e dá um alívio às nuvens concentradas convertendo-as em chuvisqueiro tão efémero que a brevidade das estrelas cadentes nos dias de sorte com o pescado, pois só servia para dissipar aquilo que tirou os banhistas das suas casas. Da tristeza dos pescadores está a alegria dos banhistas cansados de nadar contra a maré. As ondas, ventiladores, só quem está  ao pé do mar sabe do barulho e da brisa que elas fazem na praia...  



Adam Lima Malicha; in: "Almanaque" 



QUATRO VERSOS, PRETENSA QUADRA DE AMOR À UMA QUERIDA



Uso a minha alma para te escrever
Estes quatro versos frios, dois curtos, dois longos, que de amor tenciono
Procuro rima para neles poder nos ver
Nestes versos quero sentir o arrepio de quem os direcciono


Adam Lima Malicha; in: "Almanaque"


A ÁRVORE QUE VIVE EM GENTE


A árvore que vive em gente cresce em cada dia como cresce o sol no nosso dia-a-dia
A árvore que vive em gente quer crescer frondosamente.
Conhecer-se sublime em todo caso sem descaso não conhecer o ocaso
A árvore que vive em gente se predispõe a servi-la por mais que mal a dome,
Ornamenta o lar dos homens
Quando é para podá-la,
O homem provocá-a achas

A árvore em alvenarias come a poeira do cimento
Sortudamente toma do céu o maná
Abundante nas mão humanas
A árvore que vive em gente é a mais rica em vida
Por existir na gente
 e por nos achar tempo à tempo existentes
A árvore que vive em mim,
a árvore que vive em nós,
A árvore que vive na gente
É a forma de nos sentir viventes
Raiz, caule, folhas,
                                                            Inspiração, expiração.

Que mais árvore queres que viva em ti?
Aquela frondosa sempre com rosa para dar de presente a quem a vivifica
Ou árvore talhada às necessidades que gastam vidas, menos vida de que a descaracteriza?



Adam Lima Malicha; in : "Almanaque"