Bem queria emprestar o meu corpo à uma cama quente na temperatura de neve, após uma jornada desgastante
Por o quê não interessa!
A madrugada tem-me um velho hábito
O de mandar pessoas!
Mandar pessoas fazerem coisas
Coisas que o dia as sente no seu ventre
(A) "madrugada-arquitecta", arquitecta com as suas linhas o tecido das minhas vontades
À insípida escrita acorrentada pelos dotes da consciência
Enquanto outros corpos gozam da inconsciência
Sobrevivo eu provocando lucidez daqueles que presumivelmente cumpriram o dia
Diferentemente de mim em que o dia é madrugada.
Seja por sensatez ou
por insansatez, nesse horário é onde me encontro nos desencontros dos
outros.
"A única maneira de teres sensações novas é construires-te uma alma nova... e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las." Fernando Pessoa; in Livro do Desassossego.
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terça-feira, 17 de dezembro de 2013
DESEJO DE SER
Eu tenho desejo
Escrever-me a própria biografia
Biografia que sirva-me de espelho
Eu pretendo me conhecer
Na vala dos incógnitos
O maior desejo é ser
Agora nada melhor que tudo almejo
Ser eu mesmo
De tudo bem sei
Seria como pensei
(E) se os demais fossem eles?
Não haveria padrão, muito menos patrão
Normal e muito menos anormal
Dói ser natural
O homem precisa do artificial par sobreviver
Adam Lima; in: "Almanaque"
Escrever-me a própria biografia
Biografia que sirva-me de espelho
Eu pretendo me conhecer
Na vala dos incógnitos
O maior desejo é ser
Agora nada melhor que tudo almejo
Ser eu mesmo
De tudo bem sei
Seria como pensei
(E) se os demais fossem eles?
Não haveria padrão, muito menos patrão
Normal e muito menos anormal
Dói ser natural
O homem precisa do artificial par sobreviver
Adam Lima; in: "Almanaque"
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
CACTO DESENTERRADO DO CAMINHO
Perdoe
minha lamúria filho da natureza
Venho
da deserta terra solidão distante
Prego,
desprego as minhas andanças nas salivas de bocas escorregadias
A
minha pujança me enfraquece aos golpes do chão mãe
Louvai-me
com língua ensopada
Ficai
à minha espera
Cantai
saudades da ex-presa
E
eu andarei dirigido por quimeras
Adam Lima, In Almanaque
CORES, AMORES E DISSABORES
Cores
vivas um pouco enegrecidas de luto vermelho, amam o amarelado de alfa
crepuscular e faz bem por aqui pousar, ómega agride a minha natureza de ser
diante da miniatura que já é grânulo com lanças afiadas com pontas prontas para
me dizimar todo como lâminas das espadas dos espartanos, dado que sou tão
pequeno grosso para tudo. Vive ou existe ou sei lá a pobre vileza da minha
alma-figura? Ninguém sabe, aproveitando-me da ignorância. Deambulo invisivelmente
nas arestas do destaque em volta da esclera, aqui disto-me de tudo isto: preto,
amarelo, vermelho, verde, azul e me resto no branco enquanto meu céu não
nublar, oh, minha cor, não estaque meu coração em relampejo, deixa-o surtir-lhe
as gotas que carbonizam os motores e põe a vida em avanço submetido à pressão, faz
desta uma modesta deprimida, esfuma, espuma meu coração enfileira no “combustão
queima-roupa” à semelhança da reacção do alcatrão mais pneu e mais jante, meu coração
férreo, meus amores não o tranquem de aço, façam-lhe grandes grades para sempre
ver a quem pode sangrar e dar a sua cor, cores tem as bolsas do meu coração
enfatizado, em corrida mediante pulsação anormal, tem uma velocidade que parte
o velocímetro e aos bocados vão-se abrindo estradas nos cabelos da relva
enraivecida. Ancas embaciadas, bravo branco sufoca-me agressivamente nas bacias
das suas ancas sobrecarregadas que com mamilos serve-se-me de sorvo, eu já
grosso, me fogem munições ensalivadas, quero pará-lo, oportuna-me ser e fazer mais
do que eu faço, mesmo sem ser e muito menos estar capacitado e ser capaz, mesmo
com um visual onomástico que se faz de nome tão já velho na jovialidade como
farol pluricromático mal montado balouçado nas extremidades das seus alicerces.
BALBÚRDIA NO CONVENTO NEGRO
Gargalhadas
rasgam o tímpano
Estilhaçam
pulmões
É
a balbúrdia ao infinito, na voz não estou sozinho
São
morcego sem reunião, compartilhando o sumo dos berros
Em cada lado, há gente
chupando qualquer coisa
Porque coisa para
chupar aqui não falta
O
que não agrada não tem vista
Tudo
está cativado na perfeita perfeição
Fora
disso, chora tudo na cara da poluição
O pagão veste o facto
sagrado, as brasas esvaem o medo plácido
Crê-se no que se vive,
as preces são entregues à simulacros
Chove multidão de gente
em conjunta adoração
Evapora a lucidez
insignificante
Pouco ou nada se sabe
onde está a razão
Missão sem nenhuma
missão, é só para cumprir com a ocasião
Adam Lima, In Almanaque
DURMA NO COLO DA VOLÚPIA E O RESTO CUIDO EU
Durma no colo da volúpia e o resto cuido eu. Não se
preocupe de tudo à sua pessoa, arco amavelmente sem precalços com os segredos do seu
corpo. Mui, um pouco rude, perdoe-me, é a selvajaria que o amor exige. Se por
acaso lhe morder, se por acaso lhe morder vai ter de me perdoar também, é que
alguns obstáculos são precisos e fazem parte do caminho. E se por acaso gritar
injustificadamente na bacia do seu busto espero que me entenda como eu lhe
entendo quando por nada além por mim gemes. Se for violento lhe peço
francamente não me queixe às esquadras verdadeiramente violentas, apenas
conceba a minha violência como um beijo mordidinho prazerosamente no pescoço,
sinta isso como condição determinada pelo amor. Porque amor nada mais que as
nossas impressões. Que valha pena escalar montanha para ver a planície pode
acreditar, porque só lhe tenho por inteiro seguindo passo à passo, assim sinto
melhor o gosto do cansaço percorrendo e queimando descontroladamente as
nossas nuas florestas que nos conservam bem no final alguma lagoa do saboroso
líquido. Quero na duração deste momento a demora mais demorada, a eternidade
mais terna e eterna e, por cumplicidade, por conjunção de copular, em si
consenti igualmente o mesmo. Oxalá que o (momento) atinjamos juntamente e
tardiamente…
Adam Lima, In Almanaque
FICO TRISTE QUANDO TE VEJO DURA
Fico triste quando te vejo dura
Quando por comportamento da face
E por atitudes actuas diabos
Partis-me
cabos da doce e humilde espera
que
levei à cabo dias adentro à espera
Atribues-me
valores pássimos que nem o matemático inventa
Assim
a mim só resta negar tudo teu, espinho que me aleja
negar
essa máscara que ma vestes na fala
no
teu olhar repulsivo que me corta a fala
Desanimado
me calo
Rastejo
em outros ângulos ocupantes da vida
balouço no vazio insólito
Mudo, bebo doutro mundo sem cor, sem sabor
E, fim ao cabo enquanto germina em mim
A angústia e desdém teu
Dura a corrente que me sepulta nos covís das ruas
Fazendo-me provar do teu fel…
Diz
que me vês
Diz-me
que a minha ausência sentes
Quem
sabe assim serenizas a minha ventania
E
mostra-te humana, embora às vezes dura
Adam Lima, In Almanaque
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