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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

PELA MADRUGADA PROVOCANDO LUCIDEZ

Bem queria emprestar o meu corpo à uma cama quente na temperatura de neve, após uma jornada desgastante
Por o quê não interessa!
A madrugada tem-me um velho hábito
O de mandar pessoas!
Mandar pessoas fazerem coisas
Coisas que o dia as sente no seu ventre
(A) "madrugada-arquitecta", arquitecta com as suas linhas o tecido das minhas vontades
À insípida escrita acorrentada pelos dotes da consciência
Enquanto outros corpos gozam da inconsciência
Sobrevivo eu provocando lucidez daqueles que presumivelmente cumpriram o dia
Diferentemente de mim em que o dia é madrugada.

Seja por sensatez ou por insansatez, nesse horário é onde me encontro nos desencontros dos outros. 




DESEJO DE SER

Eu tenho desejo
Escrever-me a própria biografia
Biografia que sirva-me de espelho
Eu pretendo me conhecer
Na vala dos incógnitos
O maior desejo é ser
Agora nada melhor que tudo almejo
Ser eu mesmo
De tudo bem sei
Seria como pensei
(E) se os demais fossem eles?
Não haveria padrão, muito menos patrão
Normal e muito menos anormal
Dói ser natural
O homem precisa do artificial par sobreviver




Adam Lima; in: "Almanaque"

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

CACTO DESENTERRADO DO CAMINHO



Perdoe minha lamúria filho da natureza
Venho da deserta terra solidão distante
Prego, desprego as minhas andanças nas salivas de bocas escorregadias
A minha pujança me enfraquece aos golpes do chão mãe
Louvai-me com língua ensopada
Ficai à minha espera
Cantai saudades da ex-presa
E eu andarei dirigido por quimeras    


                                              Adam Lima, In Almanaque

CORES, AMORES E DISSABORES


Cores vivas um pouco enegrecidas de luto vermelho, amam o amarelado de alfa crepuscular e faz bem por aqui pousar, ómega agride a minha natureza de ser diante da miniatura que já é grânulo com lanças afiadas com pontas prontas para me dizimar todo como lâminas das espadas dos espartanos, dado que sou tão pequeno grosso para tudo. Vive ou existe ou sei lá a pobre vileza da minha alma-figura? Ninguém sabe, aproveitando-me da ignorância. Deambulo invisivelmente nas arestas do destaque em volta da esclera, aqui disto-me de tudo isto: preto, amarelo, vermelho, verde, azul e me resto no branco enquanto meu céu não nublar, oh, minha cor, não estaque meu coração em relampejo, deixa-o surtir-lhe as gotas que carbonizam os motores e põe a vida em avanço submetido à pressão, faz desta uma modesta deprimida, esfuma, espuma meu coração enfileira no “combustão queima-roupa” à semelhança da reacção do alcatrão mais pneu e mais jante, meu coração férreo, meus amores não o tranquem de aço, façam-lhe grandes grades para sempre ver a quem pode sangrar e dar a sua cor, cores tem as bolsas do meu coração enfatizado, em corrida mediante pulsação anormal, tem uma velocidade que parte o velocímetro e aos bocados vão-se abrindo estradas nos cabelos da relva enraivecida. Ancas embaciadas, bravo branco sufoca-me agressivamente nas bacias das suas ancas sobrecarregadas que com mamilos serve-se-me de sorvo, eu já grosso, me fogem munições ensalivadas, quero pará-lo, oportuna-me ser e fazer mais do que eu faço, mesmo sem ser e muito menos estar capacitado e ser capaz, mesmo com um visual onomástico que se faz de nome tão já velho na jovialidade como farol pluricromático mal montado balouçado nas extremidades das seus alicerces.  



                                                      
                                           Adam Lima, In Almanaque


BALBÚRDIA NO CONVENTO NEGRO



Gargalhadas rasgam o tímpano
Estilhaçam pulmões
É a balbúrdia ao infinito, na voz não estou sozinho
São morcego sem reunião, compartilhando o sumo dos berros


Em cada lado, há gente chupando qualquer coisa
Porque coisa para chupar aqui não falta

O que não agrada não tem vista
Tudo está cativado na perfeita perfeição
Fora disso, chora tudo na cara da poluição

O pagão veste o facto sagrado, as brasas esvaem o medo plácido
Crê-se no que se vive, as preces são entregues à simulacros
Chove multidão de gente em conjunta adoração
Evapora a lucidez insignificante
Pouco ou nada se sabe onde está a razão
Missão sem nenhuma missão, é só para cumprir com a ocasião



Adam Lima, In Almanaque
 

DURMA NO COLO DA VOLÚPIA E O RESTO CUIDO EU




Durma no colo da volúpia e o resto cuido eu. Não se preocupe de tudo à sua pessoa, arco amavelmente sem precalços com os segredos do seu corpo. Mui, um pouco rude, perdoe-me, é a selvajaria que o amor exige. Se por acaso lhe morder, se por acaso lhe morder vai ter de me perdoar também, é que alguns obstáculos são precisos e fazem parte do caminho. E se por acaso gritar injustificadamente na bacia do seu busto espero que me entenda como eu lhe entendo quando por nada além por mim gemes. Se for violento lhe peço francamente não me queixe às esquadras verdadeiramente violentas, apenas conceba a minha violência como um beijo mordidinho prazerosamente no pescoço, sinta isso como condição determinada pelo amor. Porque amor nada mais que as nossas impressões. Que valha pena escalar montanha para ver a planície pode acreditar, porque só lhe tenho por inteiro seguindo passo à passo, assim sinto melhor o gosto do cansaço percorrendo e queimando descontroladamente as nossas nuas florestas que nos conservam bem no final alguma lagoa do saboroso líquido. Quero na duração deste momento a demora mais demorada, a eternidade mais terna e eterna e, por cumplicidade, por conjunção de copular, em si consenti igualmente o mesmo. Oxalá que o (momento) atinjamos juntamente e tardiamente…   


                         Adam Lima, In Almanaque

FICO TRISTE QUANDO TE VEJO DURA


 
Fico triste quando te vejo dura
Quando por comportamento da face
E por atitudes actuas diabos

Partis-me cabos da doce e humilde espera
que levei à cabo dias adentro à espera
Atribues-me valores pássimos que nem o matemático inventa

Assim a mim só resta negar tudo teu, espinho que me aleja
negar essa máscara que ma vestes na fala
no teu olhar repulsivo que me corta a fala
Desanimado me calo

Rastejo em outros ângulos ocupantes da vida
balouço no vazio insólito
Mudo, bebo doutro mundo sem cor, sem sabor
E, fim ao cabo enquanto germina em mim
A angústia e desdém teu
Dura a corrente que me sepulta nos covís das ruas
Fazendo-me provar do teu fel…

Diz que me vês
Diz-me que a minha ausência sentes
Quem sabe assim serenizas a minha ventania
E mostra-te humana, embora às vezes dura



Adam Lima, In Almanaque