§Ambos
escritos em juízo de Ernesto dos Santos Sumbane
- COMENTÁRIO AO ROMANCE ”AS LÁGRIMAS DA SUA EXCELÊNCIA”
§“Do
presente é-se sempre vítima e do futuro arquitecto. E o homem
sempre fruto e vítima em presente das condições”.- “AS
LÁGRIMAS DA SUA EXCELÊNCIA”. pág. 19 versão digital.
Desde
logo, adianto dizer que fez mal o meu caro amigo, companheiro
da
carteira no tratamento das leis, da jurisprudência e da doutrina
jurídica de forma particular e, acima de tudo, companheiro das
letras de forma geral, ilustre Ernesto Sumbane, por ter-me segredado,
numa das nossas conversas sobre a literatura e sobre a obra supra, in
concreto,
ainda em embrião, que, em princípio, era um conjunto de poemas que
(obviamente, como se vê) depois gloriosamente os transformou em um
romance sem atributos nem outros qualificativos, sem querer ser
bajulador, pois consciente de que a bajulação é um pano preto que
oculta o espírito crítico que presumo ter e que sempre tenho
tentado1
incutir em mim, mesmo que ela (a bajulação) me cerque a coloco
distante do meu alcance.
Apraz-me,
portanto, ler obras (na verdade projectos de obras) antes mesmo da
sua publicação oficial, facto que, talvez, deve-se a escassa sorte
de assim proceder, e quem me tem brindando com esta é o Sumbane
(como é tratado nos corredores da facudade e no fórum amigável),
ao qual já agradeço dizendo: obrigado,
irmão.
Foi o que aconteceu no seu “O
Pranto dos Justiceiros”,
para além da presente obra em juízo.
“As
lágrimas da sua excelência”
tem um acento híper-sedutor como tem sido de costume em relação
aos ditos e escritos de Sumbane por discutir o assunto com deleite e
razão, mas sobretudo, reflexivo quanto aos milandos ocorridos nos
meandros da vida política, desde a eleição de dirigentes
incompententes em detrimento dos competentes por motivos diversos
como confiança política, etc, podemos citar a seguinte passagem que
tal ilustra: “MAS
DE ONDE VEM ESTE MIÚDO? Pois ele, nunca tinha exercido nem um cargo
miúdo na administração, nem tinha dedicado a vida à política,
nem se destacara nas letras, tão pouco se aventurava em
intervencionismos da esquerda”.
Noutro
plano, “As
lágrimas da sua excelência”, apesar
de não ser de qualificar,
pertence
ao existencialismo (“Pois
existir, não é estar vivo Existir é algo no mundo para o mundo
útil se ter feito”-
pág. 20, adiante “Vem
tu senhora dumbanengueira diga-me pois o que é existir. Diga-me a
mim direi eu aos eruditos e intelectuais. Dê-me o seu censo comum e
nutre-me de sapiência desse comum censo seu sem comum ser”. Pág.
22
da versão digital), mas acima de tudo, humanismo, porque, afinal de
contas, como adverte o pai da teoria, Jean Paul Sartre,
existencialismo
é um humanismo.
Nesta
segunda obra do ilustre Sumbane é notavelmente evidente, também, o
pensamento crítico ao maquiavelismo característico, “in
facto”,
em muitos países “subdesenvolvidos”, países africanos, por
exemplo.
“As
lágrimas da sua excelência”
debate a política como auge da procura, por parte do cidadão de
farturas e quando ela ou o cidadão falha, alternativas não faltam,
para o caso particular do seu ex-ministro João Samuel, personagem
principal, a escrita foi a saída (“Pensou
mesmo em se meter na escrita, ali podia ainda se reabilitar a fama e
honra, podia contar com o seu passado político para ter
credibilidade dos leitores.
Oh!
Sim pelo menos isso me resta”- pág.
4), assim se desenrola “As
lágrimas da sua excelência”.
- COMENTÁRIO AO ARTIGO “NUDOS ANDANDO DESCALÇOS NUM CAMINHO ESPINHOSO –“GLOBALIZAÇÃO””-.
O
culturicídio ou fenómeno de aculturação são um facto já com
barba rija e é mais intenso nos países em que em termos de cultura
antropologicamente tomada são vulneráveis à penetração de outras
culturas como o nosso, MOÇAMBIQUE. Portanto, a penetração de
outras culturas no interior da nossa, faz com que a hibridez cultural
em Moçambique torna-se mais híbrida2,
isto é, faz com que a mesma se intensifique cada vez. Todavia, assim
que coisas novas e que não são nossas são mais fascinantes,
deixamo-nos, sem punhos de resistência, aculturar-se. As evidências
disso, são miúdos e miúdas manifestando a pseudo-moçambicanidade,
que na verdade é algo isento de denominação3.
A globalização, em suas modalidades diversas, expõe-se com mais
afinco na polis.
A
urbe é um convil que absorve variados artigos forasteiros como
vestimentas, dado o nível de atratividade
que
eles apresentam, socorrendo-se dos meios disponibilizados pela
globalização para a proliferação de mais globalização
dinamizada pela conjuntura, porque essa toda conjuntura não é dada
a mínima atenção que a daria um indivíduo localizado e consciente
de si e da sua proviniência ou cultura4,
esse conjunto de componentes proporcionadores de identidade ou de
distinção no meio dos outros. Os moçambicanos, principalmente os
da urbe, submetem-se no tráfico de outras culturas, assimilando
informações dos outros5,
modos de vestir dos outros, músicas dos outros, linguajar dos outros
e, no cômpto geral, outros maneirismos que não nos pertencem,
modas.
Assim, tudo acontece, assim: “A
despreocupação preocupada está lá /na montra como roupas nas
lojas... /é o círculo de pedras que adultera quaisquer modas....”
6
que
sejam. Há que aceitar que por vezes a existência de várias
culturas é necessária para o enriquecimento da nossa, em
particular, globalmente considerada, pois, é da miscegenação ou
dos opostos que se levanta a tanga pela espada em luta brutal com os
raios do sol. Então, um só destaca-se, quer dizer, uma só cultura
descaca-se depois de pôr a outra nua em plena praça pública. Não
imaginaria, nunca, jamais, um país sem ser ameaçado por culturas
estranhas, da mesma forma não imagino um rei que se destaca sem
existir outros reis ou pretensos reis (com esse modus operandi
cultural, afirma-se o materialismo
dialético
e a concepção marxista do mundo). E, porque, noutra vertente, mesmo
as sociedades aparentemente estáticas (os
índios, por exemplo)
são dinámicas, enquanto não estiverem satisfeitas suas
interrogações sobre o seu ideal modo de vida, sendo a cultura
dinâmica7.
Com
isso tudo dito acima, pode-se classificar “As
lágrimas da sua excelência”
como um livro (nascituro) de consternação tenaz com o próprio ego
(o da personagem principal, João Samuel posto a dançar pelo autor,
Ernesto Sumbane).
Por
sua vez, “Nudos
andando descalços num caminho espinhoso –“globalização””
pode-se
classificar como artigo que alude uma nova realidade, nesse caso, a
deôntica, quanto ao facto cultural através de uma análise glocal8
e ôntica com o ponto de vista lançado à observação do quotidiano
moçambicano ao dispor da globalização e aculturação.
Em
suma, a
escrita de Sumbane é uma escrita militante, consciente que procura
despertar consciência aos males sociais e em maior destaque a
questão política.
Por: Abdul Adamo Mulima
Anexo:
§NA
JANELA DA POLIS
Carros
voam em volta dos olhos,
Os
gritos que provocam,
Cascam
a lamuriosa atmosfera diluida
por
vozes humanas e das máquinas
A
despreocupação preocupada está lá
na
montra como roupas nas lojas
As
gigantescas alvenarias
Atritam
a respiração que falta oxigénio,
Porém,
alimenta o ar com o dióxido de carbono
é
o circulo de pedras que adultera quaisquer modas
que
de tamanho das arranha-ceus
caem
brutalmente em pó grosso do cimento
como
engodo na boca da cidade
1
“...tenho
tentado...”,
porque dizer que: tenho incutido simplesmente, seria um vício para
quem é cônscio da sua inconclusão e, porque daria a impressão de
um sentido de convicção e conclusão daquilo que pretendo.
2
Desde
há muito híbrida, apontando como exemplos que a atestam: a
expansão dos árabes e sua fixação nas zonas centro e norte do
país e a colonização portuguesa, as tentativas de fixação de
colónias por Ingleses, Alemães, etc.
3
Digo
isso porque escutam, dançam (maioritariamente a Música angolana-
groove, kuduro-, kizomba...) vestem-se fora do contexto moçambicano
(“sllegue”- insulto descarado da nossa cultura), sem, pelo
menos, deixar em si marcas da moçambicanidade-
Moçambique,
país ricasso em cultura própria-
e, manifestando estes artefactos a nós alheios, nem para donos dos
mesmos são familiares quando por moçambicanos são manifestados.-
Moçambique,
país ricasso em cultura própria.
4
“Ela
(a cultura- meus parentêsis)
é necessária, de certa maneira para pensar a unidade da humanidade
na diversidade além dos termos biológicos. Ela parece oferecer a
resposta mais satisfatória à questão da diferença entre os
povos,...” in
CUCHE, Denys (1999). A
noção da cultura nas ciências sociais (tradução
de: Viviane Ribeiro). EDUSC
5
“Outros”,
refiro-me aos estrangeiros ou de culturas diferentes das
nossas(moçambicanas).
7
Vide
BARROS LARAIA. Roque(2004); CULTURA-
Um conceito antropológico.
17ª ed. Jorge zahar editor. Rio de Janeiro. pág. 94
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