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sexta-feira, 23 de junho de 2017

COMENTÁRIOS AO ROMANCE: ”AS LÁGRIMAS DA SUA EXCELÊNCIA” E AO ARTIGO “NUDOS ANDANDO DESCALÇOS NUM CAMINHO ESPINHOSO –“GLOBALIZAÇÃO””-.


§Ambos escritos em juízo de Ernesto dos Santos Sumbane






  • COMENTÁRIO AO ROMANCE ”AS LÁGRIMAS DA SUA EXCELÊNCIA”




§“Do presente é-se sempre vítima e do futuro arquitecto. E o homem sempre fruto e vítima em presente das condições”.- “AS LÁGRIMAS DA SUA EXCELÊNCIA”. pág. 19 versão digital.


Desde logo, adianto dizer que fez mal o meu caro amigo, companheiro da carteira no tratamento das leis, da jurisprudência e da doutrina jurídica de forma particular e, acima de tudo, companheiro das letras de forma geral, ilustre Ernesto Sumbane, por ter-me segredado, numa das nossas conversas sobre a literatura e sobre a obra supra, in concreto, ainda em embrião, que, em princípio, era um conjunto de poemas que (obviamente, como se vê) depois gloriosamente os transformou em um romance sem atributos nem outros qualificativos, sem querer ser bajulador, pois consciente de que a bajulação é um pano preto que oculta o espírito crítico que presumo ter e que sempre tenho tentado1 incutir em mim, mesmo que ela (a bajulação) me cerque a coloco distante do meu alcance.


Apraz-me, portanto, ler obras (na verdade projectos de obras) antes mesmo da sua publicação oficial, facto que, talvez, deve-se a escassa sorte de assim proceder, e quem me tem brindando com esta é o Sumbane (como é tratado nos corredores da facudade e no fórum amigável), ao qual já agradeço dizendo: obrigado, irmão. Foi o que aconteceu no seu “O Pranto dos Justiceiros”, para além da presente obra em juízo.
As lágrimas da sua excelência” tem um acento híper-sedutor como tem sido de costume em relação aos ditos e escritos de Sumbane por discutir o assunto com deleite e razão, mas sobretudo, reflexivo quanto aos milandos ocorridos nos meandros da vida política, desde a eleição de dirigentes incompententes em detrimento dos competentes por motivos diversos como confiança política, etc, podemos citar a seguinte passagem que tal ilustra: “MAS DE ONDE VEM ESTE MIÚDO? Pois ele, nunca tinha exercido nem um cargo miúdo na administração, nem tinha dedicado a vida à política, nem se destacara nas letras, tão pouco se aventurava em intervencionismos da esquerda”.
Noutro plano, “As lágrimas da sua excelência”, apesar de não ser de qualificar, pertence ao existencialismo (“Pois existir, não é estar vivo Existir é algo no mundo para o mundo útil se ter feito”- pág. 20, adiante “Vem tu senhora dumbanengueira diga-me pois o que é existir. Diga-me a mim direi eu aos eruditos e intelectuais. Dê-me o seu censo comum e nutre-me de sapiência desse comum censo seu sem comum ser”. Pág. 22 da versão digital), mas acima de tudo, humanismo, porque, afinal de contas, como adverte o pai da teoria, Jean Paul Sartre, existencialismo é um humanismo.
Nesta segunda obra do ilustre Sumbane é notavelmente evidente, também, o pensamento crítico ao maquiavelismo característico, “in facto”, em muitos países “subdesenvolvidos”, países africanos, por exemplo.
As lágrimas da sua excelência” debate a política como auge da procura, por parte do cidadão de farturas e quando ela ou o cidadão falha, alternativas não faltam, para o caso particular do seu ex-ministro João Samuel, personagem principal, a escrita foi a saída (“Pensou mesmo em se meter na escrita, ali podia ainda se reabilitar a fama e honra, podia contar com o seu passado político para ter credibilidade dos leitores.
Oh! Sim pelo menos isso me resta”- pág. 4), assim se desenrola “As lágrimas da sua excelência”.


  • COMENTÁRIO AO ARTIGO “NUDOS ANDANDO DESCALÇOS NUM CAMINHO ESPINHOSO –“GLOBALIZAÇÃO””-.



O culturicídio ou fenómeno de aculturação são um facto já com barba rija e é mais intenso nos países em que em termos de cultura antropologicamente tomada são vulneráveis à penetração de outras culturas como o nosso, MOÇAMBIQUE. Portanto, a penetração de outras culturas no interior da nossa, faz com que a hibridez cultural em Moçambique torna-se mais híbrida2, isto é, faz com que a mesma se intensifique cada vez. Todavia, assim que coisas novas e que não são nossas são mais fascinantes, deixamo-nos, sem punhos de resistência, aculturar-se. As evidências disso, são miúdos e miúdas manifestando a pseudo-moçambicanidade, que na verdade é algo isento de denominação3. A globalização, em suas modalidades diversas, expõe-se com mais afinco na polis.
A urbe é um convil que absorve variados artigos forasteiros como vestimentas, dado o nível de atratividade que eles apresentam, socorrendo-se dos meios disponibilizados pela globalização para a proliferação de mais globalização dinamizada pela conjuntura, porque essa toda conjuntura não é dada a mínima atenção que a daria um indivíduo localizado e consciente de si e da sua proviniência ou cultura4, esse conjunto de componentes proporcionadores de identidade ou de distinção no meio dos outros. Os moçambicanos, principalmente os da urbe, submetem-se no tráfico de outras culturas, assimilando informações dos outros5, modos de vestir dos outros, músicas dos outros, linguajar dos outros e, no cômpto geral, outros maneirismos que não nos pertencem, modas. Assim, tudo acontece, assim: “A despreocupação preocupada está lá /na montra como roupas nas lojas... /é o círculo de pedras que adultera quaisquer modas....” 6 que sejam. Há que aceitar que por vezes a existência de várias culturas é necessária para o enriquecimento da nossa, em particular, globalmente considerada, pois, é da miscegenação ou dos opostos que se levanta a tanga pela espada em luta brutal com os raios do sol. Então, um só destaca-se, quer dizer, uma só cultura descaca-se depois de pôr a outra nua em plena praça pública. Não imaginaria, nunca, jamais, um país sem ser ameaçado por culturas estranhas, da mesma forma não imagino um rei que se destaca sem existir outros reis ou pretensos reis (com esse modus operandi cultural, afirma-se o materialismo dialético e a concepção marxista do mundo). E, porque, noutra vertente, mesmo as sociedades aparentemente estáticas (os índios, por exemplo) são dinámicas, enquanto não estiverem satisfeitas suas interrogações sobre o seu ideal modo de vida, sendo a cultura dinâmica7.


Com isso tudo dito acima, pode-se classificar “As lágrimas da sua excelência” como um livro (nascituro) de consternação tenaz com o próprio ego (o da personagem principal, João Samuel posto a dançar pelo autor, Ernesto Sumbane).
Por sua vez, “Nudos andando descalços num caminho espinhoso –“globalização”” pode-se classificar como artigo que alude uma nova realidade, nesse caso, a deôntica, quanto ao facto cultural através de uma análise glocal8 e ôntica com o ponto de vista lançado à observação do quotidiano moçambicano ao dispor da globalização e aculturação.
Em suma, a escrita de Sumbane é uma escrita militante, consciente que procura despertar consciência aos males sociais e em maior destaque a questão política.





Por: Abdul Adamo Mulima







Anexo:


§NA JANELA DA POLIS


Carros voam em volta dos olhos,
Os gritos que provocam,
Cascam a lamuriosa atmosfera diluida
por vozes humanas e das máquinas
A despreocupação preocupada está lá
na montra como roupas nas lojas

As gigantescas alvenarias
Atritam a respiração que falta oxigénio,
Porém, alimenta o ar com o dióxido de carbono
é o circulo de pedras que adultera quaisquer modas
que de tamanho das arranha-ceus
caem brutalmente em pó grosso do cimento
como engodo na boca da cidade


Adam Lima Malicha
1 “...tenho tentado...”, porque dizer que: tenho incutido simplesmente, seria um vício para quem é cônscio da sua inconclusão e, porque daria a impressão de um sentido de convicção e conclusão daquilo que pretendo.
2 Desde há muito híbrida, apontando como exemplos que a atestam: a expansão dos árabes e sua fixação nas zonas centro e norte do país e a colonização portuguesa, as tentativas de fixação de colónias por Ingleses, Alemães, etc.
3 Digo isso porque escutam, dançam (maioritariamente a Música angolana- groove, kuduro-, kizomba...) vestem-se fora do contexto moçambicano (“sllegue”- insulto descarado da nossa cultura), sem, pelo menos, deixar em si marcas da moçambicanidade- Moçambique, país ricasso em cultura própria- e, manifestando estes artefactos a nós alheios, nem para donos dos mesmos são familiares quando por moçambicanos são manifestados.- Moçambique, país ricasso em cultura própria.
4 Ela (a cultura- meus parentêsis) é necessária, de certa maneira para pensar a unidade da humanidade na diversidade além dos termos biológicos. Ela parece oferecer a resposta mais satisfatória à questão da diferença entre os povos,...” in CUCHE, Denys (1999). A noção da cultura nas ciências sociais (tradução de: Viviane Ribeiro). EDUSC
5 “Outros”, refiro-me aos estrangeiros ou de culturas diferentes das nossas(moçambicanas).
6 Do meu poema: “NA JANELA DA POLIS”
7 Vide BARROS LARAIA. Roque(2004); CULTURA- Um conceito antropológico. 17ª ed. Jorge zahar editor. Rio de Janeiro. pág. 94
8

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